Do avesso

byMonteverano©

Sentada na mesa do café ela observa discretamente o homem sentado a sua frente que discute negócios ao celular. Alto, magro, cabelos pretos escassos com alguns fios brancos aqui e ali, sobrancelhas espessas, óculos retangulares de aro de metal dourado, roupas conservadoras.

Ela buscava algo que a atraísse fisicamente neste homem. Pois, na verdade, tudo nele a incomodava. A voz, a fisionomia, o tipo físico, aquele tufo de pelos aparecendo pela abertura da gola da camisa. Um peito demasiadamente peludo – um tapetinho, disse ele orgulhoso um dia. Imaginar aquele emaranhado de pelos espessos roçando sua pele lhe dava arrepios de aflição.

Olhou para as mãos. Magras, dedos longos, ossudos. Unhas maltratadas. Ela sabe que as palmas são muito quentes pois sempre que pode ele apoia a palma da mão em seu antebraço enquanto conversam amenidades. Ela busca imaginar algo sensual, algo que a ajude a decidir-se. Sentir o calor das palmas quentes em suas costas nuas. Um leve arrepio de prazer corre por sua espinha.

Voltou a analisar o rosto. Nada. Nenhum pedaço daquela face convidava beijos, lambidas, mordiscadas. Dentes da frente saltados, como os de um coelho. Uma pequena pinta na face direita.

O único detalhe erótico daquela fisionomia era um lábio inferior rosado e carnudo que contrastava com a face descarnada e os ossos salientes. Era a única coisa convidativa naquele homem. Algo protuberante, macio. Algo para ser chupado e mordiscado levemente.

Mas não havia nada mais naquele homem que a excitasse fisicamente e, mesmo assim, sentada na mesa do café ela ponderava a hipótese de ir para a cama com ele. Ir por ir. Como um homem. Sexo por sexo. Nada mais. Quebrar dentro de si própria o mito de que as mulheres, ao deitarem-se com um homem, entregam-se por completo. Ela queria tomar e não entregar. Seria capaz?

Pousando a xícara de café na mesa, ela inclinou-se um pouco mais para a frente deixando que o decote prendesse a atenção dele. Começou a brincar com o cabelo fingindo que olhava o movimento da rua e, cruzando as pernas, deixou que seu pé tocasse de leve na perna dele, mantendo o toque. Ele ainda ao telefone. Uma conversa importante. Mas agora dois olhos negros estavam fixos nela, que agia como se não percebesse nada mas que acompanhava com interesse o reflexo dele na janela.

Ainda olhando para fora ela inclina o pescoço meio que quase apoiando a testa ao vidro e começa a acariciar de leve o pescoço, passando de leve a ponta dos dedos por cima da veia jugular. Sabe que ao inclinar-se daquele modo o tecido fino da blusa mostra a renda da lingerie. Pelo reflexo no vidro vê que os olhos dele a seguem. Ele a deseja e ela sabe disso. Há semanas ela luta com a curiosidade gerada pela idéia de deitar-se com alguém que não a atrai fisicamente. Como será?

Num impulso súbito escondido pelo movimento suave, ela pousa a mão sobre a mão dele apoiada na mesa. Ele interrompe a frase por um segundo, a respiração suspensa, surpreso com o toque inesperado.

Ela continua olhando pela janela e, com a ponta do indicador, começa a traçar pequenos círculos nas costas da mão dele, subindo em direção ao pulso. O indicador continua sua investigação, contornando o punho da camisa, acompanhando as veias salientes da parte de baixo do pulso. Ele vira a palma da mão para cima e ela apoia palma contra palma. Calor. Umidade. Um leve arrepio interior.

Ela dobra os dedos e acaricia levemente a palma da mão do homem, espalmada como em uma súplica muda. Ele segura a mão dela com força, puxando um pouco o braço ao seu encontro, obrigando-a a desviar o olhar da rua e a olhar dentro dos olhos dele. Ele, definitivamente, não a agrada. Ela não sorri, não flerta, apenas olha e reconhece o desejo nos olhos dele. Isso a excita.

Ele desliga e pede a conta. Levantam-se. Ela passa na frente dele, devagar, roçando intencionalmente a lateral do seu corpo contra o corpo dele. Ele a segue, mudo. Saem do café e caminham na calçada em direção ao carro. Ele abre a porta para ela, mas antes disso sua mão traça o contorno dos ombros, indo de uma espádua a outra descendo até a cintura. Um toque suave porém masculino, preciso e forte. A sensação é surpreendentemente agradável. Ele abre a porta do carro e ela entra. Ele senta e dá a partida. “Vamos dar uma esticadinha?”. Uma onda de irritação percorre seu corpo. A voz dele é irritante. Há um quê de pedantismo nele que a incomoda. “Vamos”, responde ela, lutando contra a repulsa.

Não trocam uma palavra durante o trajeto até o motel. Pegam uma chave, estacionam, ele abre a porta do quarto. Ela entra. Respira fundo. Não há mais volta. Fica alí, parada, olhando a cama, a decoração de gosto duvidoso. Sente que ele se aproxima, a vontade de sair correndo é insuportável, ele a abraça pelas costas e enfia o rosto em seus cabelos dizendo “não acredito nisso”. Ela sente o corpo retesar com o contato, mas diz para si mesma que é uma experiência, que deve pensar como um homem, pensar em obter o máximo de prazer, uma relação puramente física, sem elementos emocionais. Sexo pelo sexo, diz a mente repetidas vezes como um mantra, tentando relaxar o corpo.

Ainda com o rosto enterrado na curva de seu pescoço ela sente as mãos dele subindo para seus seios. Automaticamente seus mamilos respondem, ficando mais duros, retesados. Ele a aperta mais forte contra seu corpo e começa a beijar de leve sua nuca. O som da respiração forte em seus ouvidos a hipnotiza. Concentrando-se no calor gerado pelas palmas das mãos e do corpo dele ela se encosta nele por completo, o corpo como que com uma personalidade própria, começando a ignorar a mente. A curiosidade de toda fêmea em ver o macho começa a surgir.

Como que sentindo finalmente uma pequena aceitação por parte dela ele coloca um dedo por entre os botões da blusa e toca a pele macia. Ela estremece com o contato. Uma mistura de excitação e desespero. Não há mais volta. As mãos dele removem a blusa com rapidez e ele crava os dentes de leve em seu pescoço enquanto as mãos deslizam pelos ombros e, com um gesto experiente, o soutien cai ao chão. As palmas ferventes voltam a cobrir os seios e ele entreabre dois dedos aprisionando os mamilos endurecidos. O indicador e o polegar fazem uma pressão suave e ritmada, como se beliscando e massageando ao mesmo tempo. Ela surpreende-se com o leve murmúrio de prazer que sai de sua garganta.

Ela coloca os braços para trás, empinando os seios contra as mãos espalmadas e tateia a cintura do homem procurando pelo zíper. Ainda de costas ela enfia uma mão pela abertura, sentindo o volume, a umidade e o calor por trás do pano. Ele suspira pesado e girando-a ficam frente a frente.

Por um minuto ela fica chocada ao revê-lo. A repulsa toma conta dela momentaneamente. Mas ele puxa seu corpo contra o dele e a beija com uma quase violência, pressionando as mãos contra suas nádegas, apertando-a de encontro à sua rigidez. Ela é tomada por uma avalanche de emoções conflitantes: desejo, irritação, pressa e uma contraditória e avassaladora curiosidade.

A língua dele invade sua boca. É um pouco áspera. Ela sente náuseas. Mas, vencendo a repugnância inicial e concentrando-se na maciez dos lábios ela corresponde e observa as reações que sua língua provoca na respiração dele e sorri levemente por dentro. Será assim então? Obter prazer através do prazer causado? Ele desliza a boca dos lábios para o pescoço dela. Ela não reage muito, ainda lutando entre a sensação de irritação e a curiosidade.

Mas por fim, decide mover-se e passa os dedos pelos cabelos ralos dele. O tato é desagradável. Cabelos secos. Ela rapidamente pousa a mão no pescoço dele, procurando uma impressão mais agradável. A boca dele volta a cobrir a sua. Ela sente a respiração dele aumentar de intensidade. Ele se inclina mais para cima dela, a mão começa a acariciar novamente o mamilo esquerdo. Ela obriga-se a fazer algo e começa a descer a mão pousada no pescoço para o peito. Toca os pelos abundantes do peito e surpreende-se com a maciez deles. Começa a desabotoar a camisa dele enquanto ele cola a boca ao seio dela sugando o mamilo como se fosse um bebê. Ela retira a camisa. As mãos hesitam antes de tocar a pele das costas, o corpo magro e nada convidativo. Mas, finalmente, toma coragem e desliza as palmas pelas costas, enquanto ele volta a beijá-la. Um beijo longo demais. Que ultrapassa o limite do excitante tornando-se cansativo. Ela interrompe o beijo. Não agüentaria por muito mais tempo.

Ela tira os óculos dele. Prefere deixá-lo sem ver bem o que acontece. Pega sua mão e leva o dedão à boca. Começa a chupar com força, observando as reações dele como quem analisa um vírus no microscópio. Retira o dedão encharcado de saliva da boca e o leva ao bico do seio. Ele começa a fazer círculos em seu mamilo deixando-o ainda mais sensível. Voltam a beijar-se. As línguas se enroscam. A náusea ainda existe. Ela fecha os olhos concentrando-se nas sensações que ele causa em seu corpo. Cobaia de si própria. O mamilo aprisionado entre o polegar e o indicador, sendo levemente torcido. A outra mão acariciando o contorno dos quadris. Ela percebe a umidade crescendo entre suas pernas e as afasta levemente. Ele, impressionantemente atento aos seus sinais, puxa o zíper da calça e a deixa cair no chão. Ela levanta primeiro um pé, depois o outro e mantém-se de pé, pernas pouco afastadas, como que desafiando-o a fazer algo. Ele afasta a cabeça aninhada em seu pescoço e num súbito movimento, enfia as duas mãos na cintura da calcinha de renda e a rasga ao meio enquanto a derruba na cama. Essa atitude inesperada, vinda de um homem tão contido e formal a surpreende e, de um modo estranho, a excita.

Em um segundo ele está ajoelhado no chão, as mãos afastam os joelhos e os polegares abrem bem os lábios. A língua contorna seu clitóris que começa a inchar em pulsações deliciosas. Ele evita o botão macio de carne e chupa os lábios antes de lamber toda a extensão com a língua achatada. Ela começa a acariciar seus mamilos com a ponta dos dedos e sente a excitação aumentar. Ele ergue a cabeça, a boca interrompe a carícia e fica observando o que ela faz.

Ela levanta parcialmente o tronco da cama e, pela primeira vez, olha nos olhos do homem. Volta a sentir o estranhamento, não é esse o homem que ela quer ver no meio de suas pernas, uma mistura de raiva e aborrecimento invade sua mente e ela concentra-se o mais que pode para não levantar e sair correndo da cama. Os dedos começam a investigar sua vagina, lubrificada pela secreção e, por um momento, o que era carícia torna-se invasão.

A boca retorna ao ponto anterior e a língua contorna finalmente o clitóris. Ela observa a cabeça dele entre as suas pernas, ajoelhado no chão. Vê as costas magras, os ossos salientes da espinha e subitamente a repulsa é sobrepujada pelo desejo de tirar dele todo o prazer possível. Apropriar-se da virilidade daquele homem em proveito próprio. Uma onda de poder e prazer sexual toma conta dela – é isso – o controle que ela exerce sobre a situação é a saída, o alívio.

Ela ergue-se mais um pouco, segura a cabeça dele e, puxando-o para cima, o beija. Seu gosto nos lábios dele. Seu cheiro. Ainda beijando-o ela se inclina para trás, levando-o junto, por cima dela. O peso do corpo. O calor da pele. As pontas dos dedos traçam círculos descendentes pelas costas, mal tocando a pele. As línguas entrelaçadas, entrando e saindo, lutando entre si. Ele geme, a respiração acelera. Ela gira o corpo, ficando por cima dele. Pernas abertas em torno do tronco magro.

Momentaneamente perdido com a mudança no controle da situação ele se deixa abandonar, cabeça no travesseiro, olhos semicerrados. Mas, inesperadamente ele se ergue e, sustentando as costas dela com as mãos, ficam sentados frente à frente. A cabeça dele se enterra em seu pescoço, a boca dando pequenas chupadelas, descendo em direção aos seios. Ele abocanha um deles, a língua traçando o contorno dos mamilos, a outra mão descendo pelas costas apertando as nádegas em pequenas pulsações, quase cômicas no gesto em si.

Intrigada com a lentidão e com pressa de acabar com aquilo ela decide assumir de vez o controle da situação e empurrando-o para trás quase que com violência liberta o seio da boca ávida e volta a ficar ajoelhada por cima. Ele a olha surpreso e ela percebe um quê de inquietação naquele olhar sem saber bem o porquê. Inclinando-se lentamente, ela desce o rosto até que seus lábios encontram um dos mamilos escuros, perdidos no meio dos pelos do peito. Ela lambe um com a pontinha da língua e depois sopra de leve. O mamilo responde, retesando-se e ele solta um leve suspiro. Ela contorna o pequeno biquinho com a língua achatada e começa a sugar como um bebê. Com força. Enquanto a outra mão começa a beliscar o outro mamilo. Ele geme. A boca atravessa o peito e é a vez do outro mamilo ser estimulado. Mais um gemido.

Sem levantar mais a cabeça, ignorando a pessoa e concentrando-se apenas no corpo à sua frente ela começa a descer vagarosamente pelo corpo, lambendo o caminho de pelos que sai do peito em direção ao meio das pernas. Contorna o umbigo com a língua antes de dar pequenas estocadas com a língua, como se fosse o bater das asas de uma borboleta. Ele suspira mais forte.

Erguendo o tronco, ajoelhada no meio das pernas abertas dele ela observa atentamente o homem à sua frente. Deitado, rosto semi oculto nas dobras dos travesseiros, braços estendidos ao longo do corpo, o corpo magro e sem músculos definidos. No meio das pernas, um pênis pequeno e delicado, sem nenhuma indicação de rigidez, como se fosse um animalzinho deitado num estranho e macio ninho arredondado.

A curiosidade do fato vence toda a aversão e, descendo lentamente as mãos pelas laterais do corpo dele ela começa a acariciar a parte interna das coxas dele, subindo até chegar aos testículos. As pontas dos dedos traçam o contorno com suavidade e ela vê a pele das pernas se arrepiar. Ela se inclina mais e repete o mesmo desenho com a ponta da língua, subindo até o pênis ainda inerte.

A língua contorna a cabeça circuncidada várias vezes e, aos poucos, o sangue começa a fluir e a intumescer o membro. Ela desce a língua até os testículos, ele estica a mão e os puxa para cima, segurando-os enquanto ela lambe com cuidado a região por baixo deles. O pênis agora semi ereto.

Ele senta e pegando-a pelos ombros, gira seu corpo deitando-a de costas na cama, ficando por cima dela, apoiado sobre os cotovelos. Ela abre os olhos e, finalmente, olha o rosto acima dela. É como se o estivesse vendo pela primeira vez. Quem é esse homem? O que está fazendo ali? Levantando o corpo com os braços e apoiando-se nas mãos ele ergue e dobra uma das pernas e começa a esfregar o joelho contra a vagina dela. Sem machucar mas com uma certa violência reprimida. Uma imitação deficiente, um substituto ridículo para o pênis novamente flácido entre suas pernas. Ele continua esfregando o joelho contra seu corpo em movimentos circulares. Ela estica os braços e o puxa de encontro ao seu corpo. Para evitar o contato visual. Supresa, aversão e piedade ficam lado a lado em sua mente.

Ele deita ao seu lado e insere devagar o dedo médio em sua vagina. Colando os lábios em seu seio, a língua voltando a golpear o mamilo sensível e protuberante em ziguezague ele começa a fazer lentos movimentos de vai e vem com o dedo. Ela se surpreende com a intensidade do prazer que isso causa e fechando os olhos, relaxa o corpo concentrada nas sensações. A lembrança das unhas das mãos maltratadas invade sua mente por um instante e o arrepio que percorre seu corpo não é de prazer. Ele continua sem pressa. O dedo entrando e saindo. Aparentemente contra sua vontade a umidade aumenta, facilitando o movimento. Ela fica confusa com a separação entre corpo e mente. Sente que um orgasmo se aproxima, corpo alheio ao seu estado de espírito. Ele percebe o retesar do corpo dela e aumenta um pouco o ritmo das chupadas no seio e do entra e sai do dedo. A sensação cresce. Acumula-se. Intensifica-se. A respiração acelera. As palmas das mãos agarram o lençol. Falta coragem de tocar aquele homem. Ele coloca o dedão no clitóris e desenha a pressão em círculos. Minutos depois ela explode. O corpo arqueia. Ele, com a boca ainda colada ao bico do seio, mordisca a ponta do mamilo com uma certa força. A pontada de dor e as ondas de prazer se misturam e ela solta um “Ah!” interrompido pela língua dele que invade novamente sua boca. A náusea retorna e mistura-se ao movimento ondulante dentro de seu corpo numa mistura inusitada de sensações internas. Prazer e asco. Um conflito acre-doce.

Quando cessam as contrações em sua vagina ele retira com gentileza o dedo e interrompe o beijo. Ela continua com os olhos fechados. Não pode e não quer olhar para ele. Girando lentamente na cama ela deita de lado e abraça com um certo desalento o travesseiro. A garganta fechada. O estômago embrulhado. A vagina encharcada. Os mamilos sensíveis pelo excesso de estímulo. Uma sensação inesperada de satisfação física. Uma sucessão de sentimentos contraditórios e incoerentes atravessam sua mente. Ele levanta-se e vai ao banheiro. O som da ducha determina uma finalização. Sem pensar e com movimentos rápidos ela veste-se apressadamente e sai do quarto sem hesitação, quase correndo. Chega à portaria e pede que chamem um táxi. Entra e mal tem tempo de abrir a janela do carro já em movimento. Numa onda de suor frio o vômito a libera e ela sente-se – finalmente – apaziguada.

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